← Voltar aos textosVínculo e maternidade

“E se eu não amar meu filho?”: um medo mais comum do que parece

Por Talita Barreto · Psicóloga clínica · CRP 13/7742 · Leitura de 4 minutos

Esse pensamento pode aparecer na gravidez, antes mesmo de você conhecer o bebê. Ou depois do nascimento, quando todos perguntam se você está vivendo o maior amor do mundo e você ainda tenta entender o que sente.

O medo costuma vir acompanhado de vergonha. Parece que dizer isso em voz alta seria admitir algo terrível.

Mas ter esse pensamento não significa que você não vai amar seu filho. Muitas vezes, ele mostra o tamanho da expectativa colocada sobre esse encontro.

Nem todo vínculo começa como uma explosão de amor

Há mães que sentem uma conexão intensa desde a gravidez ou no nascimento. Para outras, o vínculo cresce aos poucos, nos cuidados repetidos, no reconhecimento do choro, no jeito como o bebê começa a responder.

Um amor que leva tempo não é menor. Relações humanas também são construídas.

O problema é que quase ninguém conta essa parte. Quando só existe espaço para a narrativa do amor imediato, qualquer experiência diferente parece errada.

O puerpério pode dificultar o encontro

Depois do parto, o corpo se recupera enquanto você aprende uma rotina nova, dorme pouco e recebe demandas constantes. Pode haver dor, medo, solidão e a sensação de que sua vida deixou de pertencer a você.

Nesse cenário, nem sempre é possível sentir a emoção bonita que todos esperam. Às vezes, primeiro vem a responsabilidade. O afeto vai encontrando espaço depois.

Você não precisa sentir tudo de uma vez para começar a cuidar e construir vínculo.

Pensamento não é intenção

Uma pergunta assustadora pode aparecer justamente porque amar esse filho importa muito para você. A mente tenta antecipar riscos: e se eu não der conta? E se eu me arrepender? E se eu não sentir o que deveria?

Ter um pensamento não faz com que ele se torne verdade. Ainda assim, você não precisa atravessar esse medo sozinha.

Quando procurar ajuda

Procure apoio se a angústia é intensa, se você se sente desconectada por muito tempo, se não consegue descansar mesmo quando há oportunidade ou se pensamentos de culpa, incapacidade e medo ocupam grande parte do dia.

Também é importante buscar ajuda com urgência se houver pensamentos de machucar a si mesma ou o bebê. Nessa situação, avise alguém de confiança e procure imediatamente um serviço de saúde ou emergência.

Falar sobre isso não transforma você em uma mãe ruim. Pode ser o primeiro passo para cuidar de você e da relação que está começando.

Você está assustada com o que sente — ou com o que ainda não sente?

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Texto informativo. Ele não substitui uma avaliação psicológica individual.